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300 Discos importantes da música brasileira

13/01/2010

Uma característica marcante no ser humano é rotular, compilar, dimensionar, talvez seja  uma tentativa arquetípica de entender e controlar o mundo ao seu redor. Em decorrência dessa necessidade, surgem as listas. Os 100 melhores disto, os 50 maiores daquilo, e por aí vai. Listas são sempre redutoras, mas úteis. Importante é  conhecê-las sem perder o senso crítico. Algo similar a manter em mente que o concurso de miss mundo certamente não privilegia as mulheres mais bonitas do mundo, muitas sequer sabem da existência do evento, outras simplesmente não estão interessadas em participar.

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Acaba de sair um livro interessante com a proposta de apresentar os 300 discos importantes da Música  Brasileira de Charles Garvin, baterista dos Titãsgavin_foto pela Editora Eu sou da Paz. Com textos dos jornalistas Tárik de Souza, Carlos Calado e Arthur Dapieve, o livro traz encartados dois discos históricos em CD: “O último Malandro” (1959), de Moreira da Silva, e “Baterista: Wilson das Neves” (1968), de Elza Soares. O livro apresenta capas e resenhas de discos da MPB lançados entre 1929 e 2007. A seleção certamente irá provocar controvérsias quanto a esse ou aquele trabalho excluído da lista, mas trata-se, levando em consideração a ressalva quanto às listas, de um belíssimo e competente trabalho de pesquisa e resgate da memória musical brasileira com a vantagem de apresentar o conteúdo num acabamento gráfico primoroso ao longo de suas 436 páginas.

Apesar de não fazer parte da obra, vale a pena citar que existe um blog muito interessante  baseado no livro chamado 300 discos importantes da Música Brasileira que a partir da proposta do livro, traz uma série de imagens, links para download e informações complementares utilizando a pluralidade de recursos que a internet possibilita. Vale a pena comprar o livro (apesar do preço meio salgado – R$230), acessar o blog e ver o filme, se um dia resolverem fazer…

(Entrevista sobre o livro)

Informações Complementares

Charles Gavin na Wikipédia

Site oficial dos Titãs

Blog 300 discos importantes da Música Brasileira

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Dalva e Herivelto – paixão e sofrimento produzindo arte

07/01/2010

herivelto2 Na história da Humanidade frequentemente a arte está associada a paixão e muitas vezes ao sofrimento. Apesar de não ser condição Si ne qua non para a produção artística, inúmeros casos ilustram que o artista, quando atormentado pelo sofrimento, é capaz de produzir obras primas.

Para citar alguns exemplos – Van Gogh no auge da perturbação presenteou o mundo com quadros imortais. O músico Eric Clapton, diante da dor da perda do filho num acidente doméstico, compôs uma das mais belas canções dos últimos tempos, Tears in Heaven. Clarice Lispector, cujas entrevistas deixava transparecer um sofrimento primordial em relação a existência humana, escreveu verdadeiras pérolas da litetura unversal. Com Dalva e Herivelto, a coisa não foi diferente.

O autor de uma das mais belas canções da música popular brasileira, Ave Maria no Morro, foi autor de uma enxorrada de músicas inesquecíveis quando se separou da cantora Dalva de Oliveira, que por sua vez retratou com singularidade a dor do abandono e da mágoa interpretando com perfeição queixas, lamúrias e respostas às composições do ex-marido Herivelto compostas por amigos do casal.

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Clarice Lispector, Beethoven, Eric Clapton e Van Gogh

Até mesmo o ator Fábio Assunção, afastado do cenário artístico para tentar livrar-se do vício das drogas, dá mostras que o sofrimento e as batalhas que viveu estão auxiliando no necessário amadurecimento para compor um Herivelto verossímil.

Para nós, pobres mortais, não agraciados com a genialidade, resta reagir diante das tragédias da vida como podemos, aos gênios,como Beethoven e tantos outros que fizeram da dor um estímulo para agraciar o mundo com maravilhas, resta a merecida imortalidade…

Letras das músicas de Herivelto Martins

Blog do fã clube de Dalva de Oliveira

Se você gostou dessa matéria, leia também essa:

Dalva e Herivelto : um banho de emoção

Crônicas Cotidianas – Susaninha a foca entrevista a deputada Zalú

07/01/2010

O Almeida estava impaciente. Naquele dia a redação do jornal parecia final de campeonato. Repórteres circulando  feito baratas tontas, um calor dos diabos. E ainda tinha a Susaninha,filha do senador Aristides. Uma morena bonita e graciosa de  vinte e dois anos, mas que estava mais  para anta do que foca…e pior, ia começar no jornal bem no dia em que pegaram um peixe grande da política com a boca na botija! Precisava se livrar da encrenca o quanto antes. Chamou o fotógrafo aos berros.

– Rafa, trata de acompanhar essa flor na primeira matéria dela e vê se tira umas fotos decentes dessa vez!

– Sim senhor! Onde vai ser ? Perguntou o Rafa de máquina a tiracolo.

– Gabinete da deputada Zalú. Não é que a danada da foca conseguiu uma exclusiva com a autoridade…?!

– E onde está a pauta?

– Como é que vou saber !?! È um papel amarelinho que deve estar aí nessa bagunça em cima da mesa.

Chegaram com uma hora de atraso no escritório da deputada. No caminho, a Susaninha lia mentalmente a pauta enquanto  relembrava as lições que tivera na faculdade. “Ousadia era com z ou com s?” perguntou-se aflita. A assessora da deputada já estava na recepção do prédio.

– Puxa, pensei que não viessem mais! Disse a assessora passando a mão na vasta cabeleira loira.

– Desculpe Dona Matilde, o trânsito está terrível. Respondeu Susaninha sem graça enquanto o Rafa coçava a cabeça.

– Tudo bem, acontece. Vamos logo com isso que a deputada Zalú precisa tomar o vôo para Brasília ainda hoje. Como você veio bem indicada não vou tomar nosso tempo lendo as perguntas, posso confiar no seu bom senso, certo? Perguntou a assessora sem tirar os olhos do papel.

– Firmeza. O editor chefe ajudou a preparar. Não tem como errar. Respondeu a foca com um sorriso amarelo.

Entraram no escritório . O tapete vermelho era tão grosso que os pés desapareciam da vista. A deputada Zalú aguardava impaciente.

– Olá Susana, mande um abraço pro seu pai. Pena que vocês atrasaram tanto. Senta minha filha, querem um refresco, um café?

– Não obrigada. Podemos começar a entrevista?

– Com certeza meu amor. Você sabia que eu e seu pai estudamos juntos no colégio?

– Sabia. Ele fala muito bem da senhora. Posso fazer primeiro as perguntas e quando terminar o Rafa tira as fotos ?

– Claro meu anjo.

Susaninha puxou o papel amarelo.

– Quando foi a primeira vez da senhora?

A deputada se ajeitou na poltrona.

– Primeira vez? Ah,  primeira candidatura você quer dizer. Em 1970, quando fui eleita vereadora por São Paulo.

– E qual foi o máximo de clientes que a senhora teve?

– Você quer dizer eleitores não é? Não acha clientes uma palavra inadequada? Foram tantos que nem saberia quantificar. Respondeu a deputada se remexendo na poltrona

– E como satisfazer as vontades de tantos clien..quero dizer eleitores diferentes?

– Isso de fato é difícil, mas quando a intenção é boa, de se doar para o próximo, a gente acaba indo de encontro ao gosto popular.

– A senhora sofre muito preconceito por causa da profissão?

A deputada Zalú ficou enrubescida.

– É uma profissão como outra qualquer, estranhas essas perguntas, não acha ?

– De maneira alguma. O jornal para o qual trabalho tem um compromisso sério com os leitores.

– Sei.  Vamos logo que o tempo está acabando.

– Está bem. Faltam apenas seis perguntas para as fotos. A senhora sente prazer na relação com os…eleitores?

– Até que enfim uma boa pergunta! Eu adoro o eleitorado, me dá muito prazer estar com eles.

– A senhora gosta de apanhar mesmo deles ou faz isso apenas para manter a imagem?

– Agora chega! Esse jornaleco está indo longe demais. O Aristides que me perdoe. Vamos  tirar essas  fotos para acabar logo com isto, onde já se viu que falta de respeito!

O Rafa estava espremido na cadeira sem coragem de tirar os olhos da pauta. A deputada se  levantou e ajeitou o tailler.

– Vamos para a sessão de fotos menino?

– Acho melhor não. Respondeu o fotógrafo constrangido.

– Qual o problema Rafa? Perguntou a Susaninha com ar ingênuo.

– Aqui na pauta está pedindo para tirar fotos da deputada sem a blusa, só de sutiã!!! Cochichou o Rafa no ouvido da colega.

A assessora da deputada irrompeu pela sala com o telefone na mão. Era o Almeida.

– Alô. Susaninha?  Pelo amor de Deus me diga que vocês não usaram  a pauta que o Rafa levou!

– Porque chefe?

– A pauta da deputada ficou em cima da minha mesa. Vocês levaram por engano a pauta da entrevista da cafetina Neruska Maruska, rainha do sado-masoquismo!

Foram necessários dois meses de envio de flores diariamente para que a deputada Zalú voltasse a falar com o senador Aristides . Por causa do  incidente, o jornal do Almeida preparou às pressas uma série de cinco reportagens no caderno de domingo sobre a biografia da deputada. O Rafa  e a Susaninha passaram três semanas fazendo matérias sobre os esgotos em céu aberto na periferia da cidade. Vida de foca não é fácil.

Meu Brasil é com “s”

06/01/2010

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Faz tempo que se utiliza a grafia do nome do nosso país com “z” –  “Brazil” como um símbolo da influência estrangeira .  São muitas as referências ao tema. Algumas vem da música, respectivamente uma bossa cantada  pela improvável dupla Rita Lee e João Gilberto “Meu Brasil é com s” e a música do Aldir Blanc “Querelas do Brasil” interpretadapela Elis numa gravação  insuperável(Veja as letras dessas músicas no final da crônica).

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Entretanto, de acordo com pesquisas históricas, “Brazil” grafado com “z” não foi uma invenção estrangeira, mas sim nossa. A forma de grafar o Brasil com “z” foi utilizada no decorrer da nossa história alternadamente com o  “s”. O que não existiu por muito tempo foi uma padronização pois não tínhamos nem mesmo uma Academia Brasileira de Letras e apenas em 1945 Brasil e Portugal acertaram um acordo ortográfico que incluiu adotar oficialmente o Brasil com “s”. Como uma boa parte do mundo já tinha impresso documentos com “z”, ficou assim. A prova está numa reprodução inserida abaixo de uma cédula  de mil  réis anterior a 1917 na qual pode-se ler “República dos Estados Unidos do Brazil”.

 

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brasilolho Os companheiros de geração devem se lembrar (1960, el tiempo pasa amicos!) o quanto nossos pais nos enrolaram com a expressão “O Brasil é o país do futuro”. Qualquer deficiência nacional nos últimos quarenta e tantos anos era resolvida em última instância, sem direito a réplica, com a surrada frase.  O tempo passou e por incrível que pareça nossos pais não estavam tão errados assim, se por um lado falta muito para o Eldorado prometido com leite e mel escorrendo pelas torneiras, por outro não vamos tão mal assim, se não somos o país do futuro ,pelo menos a coisa promete ficar no empate, o que para a surrada auto estima nacional, já e lucro.

Os problemas atuais do Brasil nem são relacionados ao Brazil, para utilizar a referência. A economia vai dando sinais de desenvolvimento, temos um momento histórico singular no qual a família média brasileira conta com uma configuração de renda bastante favorável, as políticas sociais diminuem gradativa mas continuamente o detestável desnível de classes. Ou seja, as plataformas para a construção de um futuro viável estão todas em cena. Assistimos recentemente até mesmo o que poderia ser considerado um delírio surrealista há cerca de uma década – oferecer ajuda ao FMI! Uma notícia como essa seria motivo de uma guia de internação em qualquer hospício para o jornalista. Hoje, virou fato.

Decepcionante e retrógada continua sendo mesmo a nossa classe política. Para esses, nem Brasil, nem Brazil, é Brasiú mesmo. Nunca a roubalheira foi tanta e tão descarada. Somos espectadores de um descaramento sem precedentes na história recente na refinada arte de apropriar-se do alheio, “apropriar-se” no caso um eufemismo para “roubar” e “alheio” para o seu, o meu e o nosso dinheiro pago em impostos que se esparramam feito carrapicho pelos produtos e serviços consumidos ou desejados por toda a nação. Se fosse o caso de aplicar leis severas como se faz em alguns países árabes e cortar a mão dos infratores, os espetáculos artísticos em Brasília iam ser todos cancelados por falta de público apto  a bater palmas.

Por essas e outras, talvez tenhamos que dizer aos nossos filhos quando perguntados sobre a roubalheira cotidiana que a mídia estampa em nossas casas –” Não tenha pressa, O Brasil é o país do futuro” ou pior, reproduzir a frase que certa vez li num muro e que volta e meia ressurge mais atual do que nunca ´”A solução para o Brasil é devolver para os índios e pedir desculpas”

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João Gilberto

Letra de Brasil com “s” (João Gilberto)

Quando Cabral descobriu no Brasil o caminho das Índias
Falou ao Pero Vaz para Caminha escrever para o rei
Que terra linda assim não há com tico-ticos no fubá
Quem te conhece não esquece meu Brazil é com S.
O caçador de esmeraldas achou uma mina de ouro
Caramuru deu chabu e casou com a filha do Pajé
Terra de encanto, amor e sol,
não fala inglês nem espanhol
Quem te conhece não esquece meu Brazil é com S.
E pra quem gosta de boa comida aqui é um prato cheio
Até Dom Pedro abusou do tempero e não se segurou
Oh, natureza generosa, está com tudo e não está prosa
Quem te conhece não esquece meu Brazil é com S.
Na minha terra onde tudo na vida se dá um jeitinho
Ainda hoje invasores namoram a tua beleza
Que confusão veja você, no mapa-múndi está com Z
Quem te conhece não esquece meu Brazil é com S.

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Maurício Tapajós e Aldir Blanc

Letra de “Querelas do Brasil” (Maurício Tapajós e Aldir Blanc)

O Brazil não conhece o Brasil
O Brasil nunca foi ao Brazil
Tapi, jabuti, liana, alamandra, alialaúde
Piau, ururau, aquiataúde
Piau, carioca, moreca, meganha
Jobim akarare e jobim açu
Pererê, camará, gororô, olererê
Piriri, ratatá, karatê, olará
O Brazil não merece o Brasil
O Brazil tá matando o Brasil
Gereba, saci, caandra, desmunhas, ariranha, aranha
Sertões, guimarães, bachianas, águas
E marionaíma, ariraribóia
Na aura das mãos do jobim açu
Gererê, sarará, cururu, olerê
Ratatá, bafafá, sururu, olará
Do Brasil S.O.S. ao Brasil
Tinhorão, urutú, sucuri
O Jobim, sabiá, bem-te-vi
Cabuçu, cordovil, Caxambi, olerê
Madureira, Olaria e Bangu, olará
Cascadura, Água Santa, Pari, olerê
Ipanema e Nova Iguaçu, olará
Do Brasil S.O.S. ao Brasil
Do Brasil S.O.S. ao Brasil

A morte de Erasmo Dias e um Brasil que não devemos esquecer

05/01/2010
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Niels Andreas/AE

Segunda-feira, dia 04 de janeiro faleceu o ex-deputado Erasmo Dias. Internado no Hospital do Câncer desde 02 de janeiro, o ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo ,segundo informações apuradas junto ao HC pela Folha Online, foi vitimado por câncer no estômago e no fígado.Protagonista da polêmica invasão da polícia na PUC de São Paulo em setembro de 1977 para conter a manifestação de estudantes em favor da reorganização da UNE, o coronel Erasmo Dias considerava-se  “réu eterno” por ter sido comandante da operação policial que reprimiu violentamente centenas de estudantes numa noite que entrou  para os anais da história contemporânea do Brasil.

A invasão

invasao-puc-77-abaixo-sucessao No dia 22 de novembro de 1977 por volta das 21h  cerca de 2000 estudantes iniciaram um ato público em protesto ao cerco policial realizado na USP, FGV e PUC/SP no dia anterior com o objetivo de impedir a realização do III Encontro Nacional de Estudantes.  No momento em que uma carta de repúdio a repressão do dia 21 estava sendo lida em coro, viaturas comandadas pelo então secretário de Segurança Pública Erasmo Dias cercaram o prédio da PUC e investigadores civis e tropas de choque investiram sobre a multidão iniciando uma escalada de violência que iria perdurar por várias horas com dezenas de feridos.

Segundo o relato do DCE LIVRE da PUC/SP publicado na Folha de São Paulo em 22 de novembro de 1977, foram utilizados cacetetes, bombas de gás, lança-chamas e substâncias químicas corrosivas naquela noite não apenas contra os manifestantes mas também nos estudantes nas salas de aula, bibliotecas e no restaurante provocando pânico generalizado num ataque que teve como alvo também as dependências físicas da universidade em represália da polícia pelo apoio dos reitores ao movimento estudantil (Leia relato completo no link indicado no final do artigo).invasao-puc-77-corredor

Ainda segundo o DCE, a violência gratuita foi premeditada, posto que a polícia poderia ter simplesmente dissolvido o ato público realizado naquele dia pelos estudantes, uma vez que ele foi decidido previamente em Assembléia na qual vários informantes da polícia estiveram presentes.

Erasmo Antônio Dias

Nascido no Estado de São Paulo na cidade de Paraguaçu Paulista em 02 de junho de 1924, formou-se em História pela USP e bacharel em direito pela Universidade de Guanabara. Ingressou no Exército durante o regime militar de 1964 prestando serviço durante 35 anos. Foi um dos fundadores do partido ARENA tendo sido secretário de Segurança Pública de São Paulo entre março de 1974 e março de 1979 na gestão do presidente Ernesto Geisel e do governador Paulo Egídio Martins. Foi vereador, deputado estadual e federal, encerrando a carreira política em 2004. Faleceu em 04 de janeiro de 2010

A filha de Erasmo Dias e a PUC

Em 2004 em entrevista concedida à Folha de São Paulo, o coronel Erasmo Dias afirmou ser estigmatizado pelo episódio de 1977 e que a filha teria sido humilhada ao tentar matricular-se para o curso de Direito da PUC em 1978 após ter passado no vestibular da instituição. Ele declarou na época, “(…)Quero receber reparação. Tenho mais direito a ela do que aqueles terroristas que fizeram guerrilha e agora posam de heróis, ditando as regras neste país.”

Brasil, ontem e hoje

Foram mais de vinte anos de obscurantismo no período do regime militar (1964-1989), apesar das controvérsias, os números apontam cerca de 400 brasileiros cujas vidas foram ceifadas pela ditadura. Muitas feridas ainda não foram cicatrizadas, mas a persistência venceu e o Brasil de hoje olha para o passado com alívio. A morte de Erasmo Dias, um dos símbolos de um tempo de nuvens escuras no céu azul anil nos faz lembrar que mesmo com todas as deficiências, a democracia foi conquistada com suor, lágrima e sangue e é obrigação das gerações vindouras lutar para mantê-la utilizando as melhores armas disponíveis a todos – o voto, a conscientização e a esperança de que nossos filhos vão desfrutar de um amanhã melhor do que hoje.

Referências

A morte de Erasmo Dias (Folha Online)

Entrevista de Erasmo Dias para a Folha de São Paulo em 22/08/2004

Artigo sobre a invasão da PUC publicado no MOVA (Portal do Movimento Estudantil)

Relato da invasão da PUC pelo DCE da PUC publicado na Folha de São Paulo em 28 de novembro de 1977

Artigo sobre o número de mortos durante o regime militar por Reinaldo Azevedo

Álbuns do DOPS contendo  fotos de estudantes que estavam na PUC no dia da invasão (dentre eles o ator Edson Celulari)

Dalva e Herivelto : um banho de emoção

05/01/2010

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Segunda-feira, dia 04 de Janeiro. O relógio avança, a noite chega. Começamos o ano envoltos em tragédias provocadas pelas chuvas no litoral, uma sensação estranha de que a liberdade de ir e vir pelo mundo tornou-se refém da intolerância humana. Feliz ano novo? Veremos.  Resta-nos a ficção dos cinemas, da televisão, mesmo transitando entre a medíocridade e a genialidade, a arte dos nossos dias abre clareiras  nas densas trevas da realidade. Essa é a promessa da nova minissérie, presente na beleza das cenas que os comerciais deixaram entrever, possível na riqueza do tema.

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A novela “chap chap” do Manoel Carlos estica-se nas suas obviedades e finalmente a tela se ilumina com as cores da história passional de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins. Logo nos primeiros minutos a figura do ator Fábio Assunção surge feito uma fênix. Ele que submergiu da luta contra as drogas enfrenta agora um desafio bem mais ameno e tranquilo – encarnar o cantor e compositor Herivelto Martins. As cenas se sobrepõem e aos poucos o ator vai diminuindo e o personagem cresce.  Quando Adriana Esteves surge, qualquer dúvida sobre a possibilidade de uma atriz conhecida conseguir ceder o necessário espaço para a personagem se esvanece no ar. Adriana está mais Dalva do que qualquer uma poderia ser e logo se nota que a atriz trabalhou duro para dar sopro de vida à uma mulher cuja estatura foi maior do que a própria voz aveludada.

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Assim, por mais de uma hora, embalamos em um tempo que a geração atual não conheceu mas do qual certamente sentirá saudades, seja pelo glamour do Cassino da Urca, reconstruído com perfeição na minissérie, seja pela dimensão humana da história do casal cuja vida foi um carrossel de paixões, seja por personagens saudosos do passado tais como Grande Otelo e Araci de Almeida que desfilarão na frente das câmaras essa semana.

O figurino perfeito, o ambiente urbano do Rio de Janeiro da década de 30 recriado por computação gráfica e os detalhes de decoração mostram que a indústria cinematográfica e televisiva em nosso país merece o prestígio internacional que alcançou nas últimas décadas.

Nosso país, conhecido pela falta de memória, ganha com a iniciativa de proporcionar às novas gerações a oportunidade de conhecer um pouco mais de nossa história e da grandiosidade de sua música acondicionados numa embalagem sofisticada que não deixa nada a dever aos grandes e poderosos centros de produção artística mundial.

Para Saber mais sobre Dalva de Oliveira e Herivelto Martins

Site oficial da minissérie

Dalva de Oliveira na Wikipédia

Herivelto Martins na Wikipédia

Blog sobre Dalva de Oliveira



Crônicas cotidianas – A herança

14/12/2009

 

Fazia uma década que não encontrava o Teixeira. Companheiros de balada, éramos inseparáveis. Naquele tempo morávamos no Tatuapé e além de cursarmos o antigo ginasial juntos, freqüentávamos a praça Silvio Romero compartilhando aventuras amorosas. Quando meu pai anunciou a mudança para o Rio, senti que nunca mais veria o cúmplice de lousa e crimes juvenis. O tempo foi passando, as cartas rareando e as promessas de visitas,  esquecidas. Encontrei casualmente o Teixeira numa padaria em  Perdizes. Estava comprando cigarros quando o reconheci, sentado num canto. Barba mal feita, olhos fundos. Fiquei preocupado. Fazia pelo menos uns cinco anos que não nos víamos. Eu havia mudado para o Rio de Janeiro a convite da empresa e agora voltaria para São Paulo.

– Como vão as coisas?

– Oi Estevão, senta rapaz. Não sabia que estava de volta. Toma uma comigo, tem um tempinho?

Eu tinha. O serviço estava devagar no escritório, resolvi trocar uma prosa com o camarada. Conhecia o Teixeira há pelo menos dez anos, tipo de sujeito que se um amigo precisasse, dava até a roupa do corpo.  Percebi que as coisas não iam bem.

– Como foi a temporada no Rio? Perguntou o Teixeira recobrando o entusiasmo.

– Fui promovido e estou de volta. Quais as novidades?

– Lembra do meu tio Vadinho? Respondeu fechando o cenho.

– O advogado magnata?

O Teixeira se ajeitou no banquinho.

– Esse mesmo. Setenta e dois anos de idade, depois que a esposa esticou as canelas, vivia trocando de namorada, cada mulherão de fazer inveja, uma mais nova que a outra.  De tanto querer bancar o playboy, não agüentou o tranco e foi prestar contas com a patroa no céu…

– Coitado, morreu do quê?

– Infarto, é óbvio.

– Entendo.

– Coitado sou eu. Quando fizeram o inventário, a surpresa, para os cinco filhos, uma casinha aqui, um apartamento acolá, o resto da fortuna, e bote cifrão nisso, deixou sabe para quem?

– Para as amantes, é claro. Retruquei sem hesitar.

– Nada disso. Deixou para este que vos fala, Aníbal Manuel Teixeira. Quando terminaram o inventário, descobriram que o velho era dono até de fazenda em Miami, isso sem contar os poços de petróleo. Nunca pensei que o tio Vadinho me odiasse tanto.

A essa altura da conversa, o Teixeira escondeu o rosto entre as mãos. Encheu o copo, acendeu um cigarro. Eu mal conseguia me conter de curiosidade.

– Não entendo o motivo da tristeza. Mais um pouco e te peço dinheiro emprestado.

– Essa vida é madrasta, Estevinho. Nada vem de mão beijada. Para botar a mão na dinheirama, duas condições, e aí a porca torce o rabo. A primeira, cursar advocacia. Maluquices do tio. Meu pai era advogado, ele idem, daí pôs na cabeça que eu também tinha que ser.

– Uma exigência nobre.

– Nobre qual nada. Por conta dessa profissão, cresci praticamente na rua. Papai vivia enfiado no escritório e mamãe chorando pelos cantos. Peguei uma birra tão grande que não consigo nem passar em frente a um escritório de advocacia sem fazer o cruz credo. Essa exigência ainda deu para engolir, o problema foi a segunda.

– Imagino.

– Uma tragédia. Para garantir que eu não ia fazer corpo mole, tio Vadinho exigiu no testamento que o Ananias, verdadeiro cão de guarda dele, tirasse licença do escritório para me vigiar.

– Faz sentido

– Vinte e quatro horas por dia! Ou aceitava o pau mandado morando comigo até me formar, andando para cima e para baixo atrás de mim, ou adeus fortuna!

– Será que não levaram o pedido do Vadinho muito ao pé da letra?

– Foi o que pensei. No entanto, ele deixou as instruções bem detalhadas. Além do mais, meus primos solicitaram relatório diário ao Ananias, loucos para que eu cometesse um deslize. Na prática, o único lugar em que eu teria privacidade era no banheiro.

– Pelo estado que você está, não conseguiu cumprir a exigência.

– No começo foi duro. Era cada susto! Acordava de manhã meio zonzo e o Ananias no canto do quarto feito um poste. Parecia uma assombração. Se pelo menos ele fosse mais comunicativo, não dava nem bom dia, nada de envolvimentos pessoais. Fazia parte do combinado.

– Não tem quem agüente. Respondi sem muita convicção.

– Pelo contrário. Me acostumei rápido. No final, acabei gostando.

– Como assim?

– O Ananias me seguia o tempo todo. Pensei que fosse perder o emprego. Não imaginava que o dinheiro tornasse as pessoas tão maleáveis. Meu chefe, por exemplo, quando soube da estória, passou a me tratar feito um príncipe e aceitou a presença do Ananias como se fosse a coisa mais normal desse mundo. A notícia se espalhou pelo escritório, depois pela cidade. Não tinha lugar em São Paulo que eu não entrasse facilmente.

– Por causa da herança?

– Não creio. Por causa do Ananias. Ninguém se atreveria a tratar mal um sujeito com um advogado à tira colo, principalmente com aquela cara de buldogue que ele possui. Nem precisava emitir som. Bastava olhar feio que as pessoas entendiam o recado. Entrei de graça em cinema, teatro. Não queriam nem que eu pagasse mais a conta da padaria. Tudo na faixa. Teve outro tipo de preço. As pessoas se afastaram de mim como se eu tivesse uma doença contagiosa, puro medo, com exceção da Mariana.

– Estava demorando a entrar mulher na estória. Acrescentei reflexivo.

– Essa foi a ruína. Conheci a Mariana no banco. Como de costume, nos deixaram passar na frente da fila, quando cheguei no caixa para fazer o depósito, ela estava sentada, trabalhando, o rosto branco feito um anjo, olhos verdes. Sorriu. Foi o suficiente.

– Desistiu da herança por causa do amor. Arrisquei um palpite

– Quem dera. Naquela noite saímos os três para tomar sorvete. As aulas da faculdade não tinham começado.

O Teixeira encheu o copo de uísque. Ficou calado, olhando para o vazio. Suspirou profundamente. Pressenti que a estória ia tomar um rumo trágico.

– Estávamos no carro, rostos colados, quando fui beijar a Mariana, lembrei do  estrupício do Ananias no banco de trás, perdi a coragem.

– E a Mariana, ficou zangada? Perguntei tentando imaginar o ridículo da cena.

– Pior. Quanto mais eu pedia paciência, mais ela ficava excitada e partia para cima. A cena se repetiu em todos os encontros que tivemos. Implorei para o Ananias me deixar a sós com a pequena, tentei suborno, ameaça, nada adiantou. Ele sempre no meu encalço com cara de mármore italiano.

– Não me diga que pensou em dar um fim na vida dele. Murmurei entre dentes, receoso do som das minhas próprias palavras.

– Exatamente. E, antes que fizesse besteira, rompi com a Mariana. Tremendo erro. As mulheres não aceitam bem uma recusa. Todo dia, ela ia me visitar aos prantos, implorando para voltarmos. Quando viu que não tinha jeito, deu para argumentar com o Ananias. O miserável, diante dos soluços da moça, desfez o cenho e fez cara de gente. De algum modo, ela tinha tocado o coração da fera. Até demais, conforme pude constatar…

– Como assim?

– Na manhã seguinte, quando despertei, o ignóbil tinha desaparecido. Encontrei um bilhete lacônico sobre o criado mudo. Fugiu com a Mariana , e pior, o biltre fez a coisa de tal modo que não sobrou um centavo na conta do meu tio. Botamos até a Interpol no rastro, nem sombra. Devem estar curtindo a vida em alguma ilha do Pacífico. Para mim, Estevinho, nem herança nem esperança…

Teixeira afundou no banquinho como se tivesse sido atingido por um torpedo. Fiquei mudo com o desfecho da estória. De repente, ele levantou e com o dedo em riste concluiu.

– Ironia do destino –  da Mariana até que não sinto tanta falta, já estou até de olho numa colega de classe,  agora do Ananias…..