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Luiza Erundina e a condenação pela divulgação de um anúncio nos jornais em 1989

13/11/2009

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Foto extraída do site da deputada federal Luiza Erundina

A vida é cheia de artimanhas. Sempre fui reticente com política, e continuo sendo. A ressalva com o assunto era tanta que
virou preconceito. Ler a sessão de política tornou-se um pretexto para rir e tantos foram os descalabros no cenário político nacional nestes anos todos que a uma certa altura perdeu a graça…Primeiro veio a emoção com a eleição de Tancredo Neves seguida do pranto nacional pela morte dele. Depois veio o Sarney com aquele bigodinho de cantor de tango mas que preferiu mesmo
a apatia de uma ópera em alemão, a gente tentou mas não entendeu nada. Daí veio o Collor todo “modernoso” e caímos no conto da embalagem bonitinha, o produto…confisco da poupança nacional e escandâlos até a explosão do impeachment e todo o colorido midiático dos caras pintadas. Com o Fernando Henrique muita coisa melhorou outras tantas foram abandonas ao vento. Lula, cuja figura mítica sobrevive a um partido que se desconstruiu, tenta por o Brasil nos trilhos enquanto alguns coleguinhas dele
tentam por o Brasil na cueca…Pelo menos antigamente haviam figuras exóticas na fauna pública, um Jânio Quadros de olhos esbugalhados e tiradas marotas, um Brizola com seus aforismos pernósticos. Nos dias de hoje, até o Paulo Maluf ficou quieto no canto dele, não apita mais nada se me permitem o trocadilho.

 

Até que conheci Luiza Erundina. Estavamos apresentando o trabalho do grupo Flor do Lácio, do qual participo, no teatro João Caetano, para uma platéia composta de professores e estudantes do M.O.V.A., criado pelo saudoso Paulo Freire nos tempos em que ele liderava a pasta da Educação na gestão de Luiza. Quando fomos informados que a ex-prefeita e atual deputada estava presente, não fizemos muito caso, afinal de contas é raro um político assistir um espetáculo cultural até o fim,na média eles chegam, fazem discurso e não aguentam mais do que cinco minutos sentados… Ledo engano. Luiza não só assistiu o espetáculo até o final como cantou junto e leu com desenvoltura e graça, quando solicitada, uma frase romântica tirada de um bombom e ao final fez questão de subir ao palco para cumprimentar efusivamente cada integrante do elenco.

“E você acreditou que ela estava fazendo isto sem nenhum interesse?” poderia questionar um leitor mais desconfiado. A resposta é um retumbante “Acredito sim!” o brilho nos olhos, a alegria e espontaneidade com que a deputada se expressou não deixaram margens para dúvida. Além do mais, conversamos ao final do espetáculo e Luiza demonstrou uma sensibilidade e conhecimento musical acima da média. Tempos depois fomos informados sobre um jantar beneficente organizado por um grupo de intelectuais e políticos para arrecadar fundos para quitar uma dívida de Luiza Erundina de  R$ 350 mil com a Prefeitura de São Paulo — contraída em 1989 na época em que ela era prefeita. Nos oferecemos para compor o jantar com nosso trabalho musical.

O evento, batizado de “Apoio você Luiza” ocorreu segunda-feira, dia 09 de novembro num tradicional hotel da capital paulista. Figuras representativas do cenário político e da intelectualidade nacional desfilavam com seus pratinhos nas mãos por todos os lados, o jantar esteve lotado. Cantamos, jantamos e ao final a deputada fez um discurso vigoroso e fez questão de agradecer a presença do Grupo Flor do Lácio. Em meio a tantas celebridades que foram aglutinadas nos agradecimentos sob a expressão “agradeço a todos os amigos presentes que são muitos para serem citados individualmente”, ficamos ruborizados.
Coisas de Luiza. Uma figura pública respeitada até mesmo pelos opositores e o que eu nem imaginava, um ser humano fiel aos seus ideiais, doce e cordial em seu polido sotaque nordestino.
Quanto à causa, não sou juiz muito menos advogado, e se Luiza foi condenada a pagar este valor, no mínimo suponho que houve
um julgamento com testemunhas e prazos, ou seja, tudo nos conformes da lei. Acontece que aplicação de leis e Justiça são coisas que nem sempre andam juntas. Num país onde governantes se apoderam dos bens públicos e os bancos dos tribunais criam teias de aranha, não me parece razoável que uma senhora de 74 anos com uma vida pública limpa e transparente tenha que
ressarcir o município por ter publicado uma notícia no jornal divulgando um comunicado sobre uma greve de ônibus. Cheira a perseguição e preconceito.
Da minha parte, um recado para Luiza, o dia que quiser tomar um café lá em casa, as portas estão abertas.

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