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Crônicas cotidianas – A mudança do vizinho ao lado

19/11/2009

O caminhão entra no condomínio com dificuldade. Não há espaço para manobras. Na casa ao lado, caixas de papelão empilhadas e etiquetadas aguardam o transporte. Meus vizinhos estão de mudança. Não os conheço além dos polidos cumprimentos trocados nas manhãs de correria para o trabalho. Ainda assim, somos íntimos. Separados apenas por uma fina parede de argamassa, compartilhamos involuntariamente nossas vidas com a intensidade de velhos amigos. Ela, moça nova e irrequieta, dedilha aos sábados notas dispersas ao piano. Embora não domine por completo o instrumento, também não faz vergonha. Está desempregada e cozinha bem. Por vezes chora baixinho e conversa com a mãe ao telefone. Ele, no cair da noite traz-lhe chocolates e alguma alegria. Nem sempre está bem disposto, reclama com freqüência da poeira no escritório. No jantar, ambos fazem questão de rituais. A mesa posta com talheres finos e tilintantes. Apreciam carne, mas preferem massa. Recebem visitas com alguma freqüência. O irmão dela,  Leonardo, é o mais assíduo. Bebe vinho, xinga palavrões, o dono da casa irrita-se, a mulher contemporiza. Uma ou duas indiretas e o cunhado se vai, deixando louças sujas e comentários maldosos. Há pouco tempo houve uma briga feia entre o casal. Ele, normalmente comedido, pos-se a gritar e ameaçou largar tudo. Ela não se fez de rogada e quebrou algumas louças para impressioná-lo, enquanto dizia frases entrecortadas no idioma intraduzível dos magoados. Por conta da contenda, ficaram amuados por alguns dias. A reconciliação não tardou, fizeram amor quatro vezes entre risos e gemidos.
O caminhão estaciona no jardim. Os funcionários da transportadora começam o balé do carregamento. Abro a janela do quarto do primeiro andar. Não há mais necessidade de esconder-me. Eles chegam no carro da família, estão felizes. Contenho com algum custo o ímpeto de lançar-me pelas escadas para me despedir. Lanço um olhar silencioso na direção deles. Ela enrubesce. Ele inicialmente baixa os olhos fingindo não ter me visto, de repente se enche de coragem, levanta a cabeça e com um sorriso nos lábios diz:
– Não se esqueça de tomar o remédio para tosse. Sentiremos saudades.

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2 Comentários leave one →
  1. Daniel permalink
    20/11/2009 5:44 PM

    OMG! Muito bom!

  2. 27/09/2010 11:46 PM

    Como tao pessoal?!simpatizei mesmo muito o vosso fórum!
    vao tambémno meu forum em http://www.bonuscomdeposito.pokersemdeposito.com/
    , sobre como jogar poker de cartas!
    Au revoir

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