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Crônicas cotidianas – A vendedora ambulante e a mexerica mais gostosa do mundo

25/11/2009

Foto de Paula Korosue

Costumo fazer o mesmo percurso todos os dias para ir ao trabalho. Antigamente experimentava atalhos,descia e subia morros à procura de um caminho melhor, as vezes conseguia ganhar quinze ou vinte minutos.

Hoje em dia dá tudo na mesma, o trânsito se espalhou feito fermento em todas as direções. Foi assim que conheci a turma do farol dos três tombos.
Eles chegam pontualmente as sete horas da manhã no farol com seus produtos e ficam ali torrando no sol ou se encharcando na chuva até o final da tarde. Com o tempo foram se organizando para não haver concorrência desleal. Tem o Antônio que anda numa cadeira de rodas elétrica e vende chicletes e balas, tem o Belmiro de muletas que vende carregador de celulares, o Zé dos refrigerantes e a protegida de todos, Dona Sebastiana.
No vigor dos seus oitenta e poucos anos, ela vende balas acondicionadas  num saquinho plástico com uma caneta. Segundo contam os meninos que dividem o ponto com ela, a família de Tiana é grande e ela que sustenta filhos e netos com altivez. Desconfiamos que se tratam de uma corja de aproveitadores da velhinha, mas ninguém tem coragem de falar isso perto dela, pois senão ela fica vermelha de raiva e defende a parentada teimando que eles não tiveram sorte na vida, que são pobres meninos e coisa e tal. Para manter a harmonia do pequeno estabelecimento comercial ambulante, calamos todos, colegas de trabalho dela e eu, que sou mero cliente.
No mais, a turma do farol tem o maior respeito pela Dona Tiana e quando as vendas estão fracas, todo mundo pega um pouco da mercadoria dela para vender junto com as outras e assim lhe garantem o sustento.
Outro dia, daqueles em que o trânsito não anda nem com reza brava, tinha ocorrido um acidente na Av. dos Bandeirantes ou sei lá o quê, a única  solução foi desligar o carro e aguardar as coisas melhorarem. Foi quando vi Dona Tiana sentada satisfeita em seu vestidinho surrado com duas mexericas , uma repousava-lhe intacta sobre o colo e a outra ia sendo devorada devagarinho. A cena me chamou a atenção. Não se tratavam de simples mexericas. Pareciam mais o manjar que os Deuses preparam para seus prediletos. Dona Tiana saboreava cada gomo com classe, sem deixar cair uma só gotícula do sumo e estalava a língua com gosto. Assim, de mansinho, a primeira fruta foi devorada. Acho que nem percebi mas fiquei enfeitiçado, mirando estaticamente a velhinha ceiar pois de repente Dona Tiana se virou para mim e tomei um baita susto.
– Você quer a outra mexirica?
Trazia no rosto um sorriso banguela mesclado de experiência e inocência. Imagino que ela deve ter visto olhares iguais ao meu centenas de vezes nos filhos e netos à beira do fogão na hora em que o doce está quase pronto.Aceitei o presente meio constrangido e passei a comer a minha mexirica muito feliz da vida. O farol abriu, acelerei o carro pensando que afinal de contas as minhas preocupações em trocar de carro ou com a prestação do condomínio não eram tão importantes assim. Naquele instante,
não haveria coisa mais linda no mundo que o presente da Dona Tiana.
Foto de autoria de Paula Korosue
Clique neste link para conhecer outras fotos de Paula Korosue http://www.flickr.com/photos/paulak/

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