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Crônicas Urbanas – “City Tour”, uma aventura de táxi

26/11/2009

imagem extraída do blog a devida comédia (clique para acessar)

Olhei para trás. Eram lindas. As duas. Na hora que a mais nova sentou deu para ver a calcinha. Como é que um pedacinho de pano pode mexer tanto com a imaginação da gente? Comecei a suar. E se elas pedissem para ir num lugar que eu não conhecia? Eram mais de duas horas da madrugada. Lembrei do Carlão. “Moleza Henrique, qualquer coisa, você olha no Guia SP”. O que estariam fazendo duas gatas tarde da noite sem companhia? Estranho, muito estranho. Podiam ser assaltantes, sei lá, esse mundo anda louco demais. Escolhiam uma bocada, mandavam parar, apontavam o trinta e oito na minha cara e bang! Adeus Sérgio Henrique dos Santos. Tudo por um amigo. “ Me quebra esse galho, meu chapa, tenho que viajar de todo jeito, se ninguém fizer a praça para mim, o dono da frota me bota na rua” . Dissera o Carlão com cara de cachorro magro. Na certa o sem vergonha devia estar no bem bom com a noiva em algum lugar do interior de São Paulo. E eu ali com duas criminosas…

– Moço, você vai ficar parado a noite toda?

Caí da nuvem. Era a mais velha que estava falando comigo. Chamava Rita, sabia por ter ouvido a outra falar esse nome.

– Para onde as senhoras desejam ir?

– Quanto o senhor cobra para dar uma volta pela cidade?

– Depende do roteiro. Respondi atrapalhado.Se elas não sabiam aonde queriam ir, imagine eu que nem taxista era. – A senhora teria algum ponto de referência?

– Ah, sei lá. Paulista, Ipiranga. Uma City Tour. Minha amiga é de Ribeirão Preto e não conhece São Paulo, não queremos voltar para casa tão cedo.

Respirei aliviado. Ia ser moleza. Pelo menos o centro da cidade eu conhecia dos tempos de Office-boy.

– Podemos fazer um pacote. Cem pratas e desligo o taxímetro.

Porque tinha falado aquilo? Seria por causa daquela vozinha macia nos meus ouvidos? Se desse prejuízo o Carlão me matava. Notei que a Rita estava com a maquiagem borrada nos olhos. Ela abriu uma bolsinha prateada e me deu o dinheiro.

– E a senhora, como chama?

– Daisy. Respondeu a da calcinha preta.

– Engraçado, a senhora sabia que Daisy significa Margarida em inglês e esse é justamente o nome da minha mãe? Ou seja, vocês são xarás.

– Não diga. Intrometeu-se a Rita com ar irônico. – E você sabia que a Daisy é professora de inglês? Se não fosse incomodar, dava para o senhor ligar o carro?

Entreolharam-se segurando o riso. Mancada. Além de tentar ensinar o padre nosso ao vigário tinha esquecido de ligar o motor. Subimos a Consolação. Decidi ficar calado o resto da corrida.

– Olha Daisinha, como a Avenida Paulista é charmosa!

Daisy mantinha-se encolhida no banco. Parecia amuada. A amiga cutucava-lhe tentando mostrar as flores nos postes. Coisa da prefeitura. Regulei o retrovisor para  ficar admirando as coxas das duas. Passamos em frente ao MASP. Daisy se animou um pouquinho.

– Bonito mesmo esse prédio. Deve ter cada obra de arte maravilhosa . Aquele idiota do Pedro é pintor.

– Nem pronuncie esse nome. Resmungou Rita irritada. Uns cretinos, esses homens, não podem ver um par de pernas que perdem a cabeça Disse isso com os olhos pregados no retrovisor.

Viramos na Brigadeiro Luís Antônio. As duas estavam cochichando. Quando olhei de novo pelo retrovisor, o susto. Daisy tinha levantado a blusa e estava com os seios de fora. Afundei o pé no breque, quase bateram a cara no vidro da frente.

– O senhor está louco, o que foi isso? Reclamou Rita.

– Nada. Queria apenas mostrar o hotel Unique para sua amiga. Disfarcei tentando não dar bandeira. Lembrei do Carlão “ Taxista noturno tem que ser discreto, não importa o que acontecer no banco de trás, tem que fingir que não viu” Daisy apontou para o Unique.

– É bonito mesmo, parece uma fatia de melancia gigante.

– Precisava ver o restaurante que tem em cima do prédio. Dá para ver São Paulo inteira. Respondi olhando para ver se Daisy ainda estava seminua, mas ela já tinha ajeitado a blusa.

Será que eu tinha visto coisas? O monumento a Pedro Álvares Cabral se agigantou diante de nós. Rita procurava nervosa alguma coisa na bolsa. Pronto, agora chegou a hora do revólver, pensei. Tirou um tubinho escuro. Batom. Cheirinho bom aquele. Pensei na Mariana. Se ela não tivesse me dado o fora, eu não estaria dirigindo um táxi sábado à noite. “Preciso de um tempo”. Quando estava pensando em me alistar como voluntário para ser homem bomba no Iraque, vem o Carlão e me pede o favor.

Nova espiada pelo retrovisor, dessa vez as duas tinham ido longe demais – estavam se beijando feito um casal de namorados. Fui pisar no freio, acertei o acelerador, subimos na calçada da Augusta, desviei do poste por um triz. Foi uma gritaria ensurdecedora.

– Quer matar a gente!  Berraram  as duas em coro.

– Me desculpe, é que a sem vergonhice está passando dos limites… retruquei aborrecido.

– Isso não é problema seu, quem mandou ser homem? Resmungou a Daisy ajeitando a saia

Continuamos o resto da viagem calados. De repente, o barulho.

– Xi, estourou um pneu. Avisei constrangido

Estávamos no final da Augusta com a Frei Caneca. Encostei o carro. A cerca de uns seiscentos metros de onde paramos, um grupo estranho se aglomerava na frente de um boteco fechado. Eram umas quinze pessoas, de longe pareciam um bloco carnavalesco, as roupas coloridas, brilhantes. Quem apontou primeiro foi a Rita

– Olha, um bando de travecos. Disse excitada

A impressão foi que eles ouviram e não gostaram do comentário. Em questão de minutos, o carro estava cercado. Eu nunca tinha visto tanta navalha e canivete na minha vida.

– Qual o problema “bofe”, está com medo da gente roubar seu namorado? Disse o travesti vestido de mulher maravilha.

– Não é meu namorado, se quiser, podem levar prá vocês. Respondeu a Rita com o nariz empinado.

Foi o suficiente. Os travestis partiram para cima e não tive tempo nem de piscar. Acabamos todos, eu, a Daisy e a Rita no porta-malas do táxi, as duas só de calcinha e eu fantasiado à força de enfermeira com direito a saiote e estetoscópio. A Rita bufava e a Daisy chorava baixinho.

– Vamos morrer e a culpa é desse idiota! Sussurrou a Rita

– Quem mandou provocar as “bonecas”. Retruquei já sem nenhuma paciência.

Fomos interrompidos por socos na lataria e um vozeirão grosso – “Calem a boca senão eu meto bala em todo mundo!” Rodamos mais de meia hora naquele espaço minúsculo, eu no meio e as duas malucas uma de cada lado. De uma hora para outra, uma freada brusca, o som distante de uma sirene e  silêncio total. A esta altura nós três rezávamos juntos.

O táxi tinha estacionado. Ouvíamos barulho de gente andando mas nenhum de nós teve coragem de mover um só músculo. A porta do capô abriu e escutamos alguém falando.

– Capitão, olha só o “pacote” que os travecos deixaram, duas mulheres peladas e um grandão vestido de enfermeira amarrados juntos…alguém me empresta o celular para tirar uma foto de lembrança?

Quem pagou a fiança foi a Mariana. Ela  nunca me contou como descobriram o telefone dela. Tentei explicar o ocorrido, mas ela estava de poucos amigos e não permitiu nem mesmo que a gente parasse numa loja para comprar roupas. Tive que ir para casa vestido  de enfermeira mesmo. O Carlão foi demitido por causa do incidente, e tempos depois me casei com a Daisy, aquela da calcinha preta. A Rita vem nos visitar umas duas vezes por ano em Ribeirão Preto, onde moramos, e apesar de ninguém tocar mais no assunto, quando o carro quebra,  tomamos ônibus, avião ou até charrete, táxi, nunca mais.

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