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Crônicas cotidianas – Na porta do fast food

12/12/2009

Uma chuva fina cai sobre a cidade. Eles chegam juntos, olham para os lados desconfiados. São três. O maior deve ter por volta dos dez anos, a do meio uns oito e o pequeno no máximo seis. Apesar do frio, eles estão de shorts, camiseta e chinelo. A fachada do  fast food se lança imponente em suas luzes e odores. A todo instante a porta se  abre num entra e sai de gente com saquinhos de sanduíches, batatas fritas, sorvetes e outras guloseimas. Os três recém-chegados, apesar de não terem coragem de entrar, mostram-se menos ressabiados. A menina, com os cabelos molhados pela chuva, ensaia uns pulinhos simulando o jogo da amarelinha, o pequeno tenta imitar desengonçadamente enquanto o mais velho os encara com ar de reprovação. Logo se percebe que ele é o líder e a julgar pela semelhança física, irmão dos outros dois. O olhar compenetrado dele demonstra que não estão ali para brincar. Existe uma certa solenidade no ar, um preparo para a tomada de uma grande decisão. O pequeno, provavelmente desconhecedor das regras se entedia da brincadeira proposta pela irmã e avança resolutamente para a porta do restaurante. Não há tempo hábil para impedi-lo e quando os outros dois percebem, o menorzinho já está dentro da loja com o rostinho colado no vidro, sorrindo. Como num passe de mágica, um homem alto vestido de terno surge na frente do pequenino e com o rosto contraído não lhe dirige a palavra, apenas aponta rispidamente para a rua. O pequeno abaixa a cabeça e resignadamente volta para junto dos irmãos, fora do restaurante. O irmão mais velho lhe dá um peteleco suave na cabeça e os três continuam na calçada olhando para dentro, separados pela porta de vidro, transformada nesse instante num muro de aço e concreto que separa  mundos.
Um carro tenta sem sucesso estacionar na porta do restaurante, avança para  a frente e pára no meio da rua. Um homem bem vestido desce do carro, dá a volta por trás e abre a porta traseira. Três crianças saltam alegremente do veículo. Um menino com cerca de dez anos, uma menina por volta dos oito e o pequeno com no máximo seis anos. Vestidos de blusinhas coloridas, gorros e botinhas os três caminham ao lado do homem soltando gritinhos por causa do frio e da chuva. De repente um som de buzina e uma voz áspera de mulher:
– Amor, pegue o guarda-chuva, as crianças podem ficar gripadas!
O homem volta até o carro, pega a sombrinha e estende sobre a cabeça dos pequeninos. Na calçada, num átimo de segundo, as seis crianças se entreolham. O homem aproxima os três que chegaram com ele para junto de seu corpo e entram no restaurante. Uma senhora passa pelos três meninos da calçada e puxa  um saquinho de dentro da bolsa. As crianças sorriem, aceitam o presente  e passam a devorar juntas o pequeno banquete com os olhinhos brihando de satisfação. A chuva fina continua a cair sobre a cidade e eu me pergunto quando é que vamos fabricar um guarda-chuva tão grande que caiba todo mundo…

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2 Comentários leave one →
  1. 13/12/2009 3:12 AM

    Oi, Adilson:

    Que prazer ler suas matérias, como vc escreve bem e sobre assuntos interessantes.

    Gostei muito do conselho pro Diniz, e da puxada de orelha no pessoal que só brinca e esquece o respeito por tudo e todos.
    A Leila Lopes era amiga de meu irmão – era bonita, bem humorada, meiga e batalhou por seus sonhos. Não nos cabe julgar caminhos, e sim, lamentar uma perda.

    Um beijão em vc e todos do Lácio.

    • 13/12/2009 11:26 AM

      Olá Augusta,

      É um prazer ter você aqui!

      É engraçado essa coisa de escrever, durante muitos anos eu não escrevia, de repente começou a fluir natural.Acho que o canal estava entupido e pluct, de uma hora para outra desentupiu. Francamente não sei se os textos são bons ou ruins, só sei que estão sendo escritos com muito prazer…Quanto a Leila, é uma pena mesmo, fiquei perturbado vários dias quando soube e de fato dá um certo nervoso de ver a leviandade com que parte da sociedade trata as coisas, tudo é motivo de gozação, de lucro… as vezes lembram um bando de urubus que vivem da carniça. Bem, fique a vontade aí em casa, puxa uma cadeira e descanse os pés que eu já vou te passar um cafezinho fresco…Abraços,

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