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Crônicas cotidianas – A herança

14/12/2009

 

Fazia uma década que não encontrava o Teixeira. Companheiros de balada, éramos inseparáveis. Naquele tempo morávamos no Tatuapé e além de cursarmos o antigo ginasial juntos, freqüentávamos a praça Silvio Romero compartilhando aventuras amorosas. Quando meu pai anunciou a mudança para o Rio, senti que nunca mais veria o cúmplice de lousa e crimes juvenis. O tempo foi passando, as cartas rareando e as promessas de visitas,  esquecidas. Encontrei casualmente o Teixeira numa padaria em  Perdizes. Estava comprando cigarros quando o reconheci, sentado num canto. Barba mal feita, olhos fundos. Fiquei preocupado. Fazia pelo menos uns cinco anos que não nos víamos. Eu havia mudado para o Rio de Janeiro a convite da empresa e agora voltaria para São Paulo.

– Como vão as coisas?

– Oi Estevão, senta rapaz. Não sabia que estava de volta. Toma uma comigo, tem um tempinho?

Eu tinha. O serviço estava devagar no escritório, resolvi trocar uma prosa com o camarada. Conhecia o Teixeira há pelo menos dez anos, tipo de sujeito que se um amigo precisasse, dava até a roupa do corpo.  Percebi que as coisas não iam bem.

– Como foi a temporada no Rio? Perguntou o Teixeira recobrando o entusiasmo.

– Fui promovido e estou de volta. Quais as novidades?

– Lembra do meu tio Vadinho? Respondeu fechando o cenho.

– O advogado magnata?

O Teixeira se ajeitou no banquinho.

– Esse mesmo. Setenta e dois anos de idade, depois que a esposa esticou as canelas, vivia trocando de namorada, cada mulherão de fazer inveja, uma mais nova que a outra.  De tanto querer bancar o playboy, não agüentou o tranco e foi prestar contas com a patroa no céu…

– Coitado, morreu do quê?

– Infarto, é óbvio.

– Entendo.

– Coitado sou eu. Quando fizeram o inventário, a surpresa, para os cinco filhos, uma casinha aqui, um apartamento acolá, o resto da fortuna, e bote cifrão nisso, deixou sabe para quem?

– Para as amantes, é claro. Retruquei sem hesitar.

– Nada disso. Deixou para este que vos fala, Aníbal Manuel Teixeira. Quando terminaram o inventário, descobriram que o velho era dono até de fazenda em Miami, isso sem contar os poços de petróleo. Nunca pensei que o tio Vadinho me odiasse tanto.

A essa altura da conversa, o Teixeira escondeu o rosto entre as mãos. Encheu o copo, acendeu um cigarro. Eu mal conseguia me conter de curiosidade.

– Não entendo o motivo da tristeza. Mais um pouco e te peço dinheiro emprestado.

– Essa vida é madrasta, Estevinho. Nada vem de mão beijada. Para botar a mão na dinheirama, duas condições, e aí a porca torce o rabo. A primeira, cursar advocacia. Maluquices do tio. Meu pai era advogado, ele idem, daí pôs na cabeça que eu também tinha que ser.

– Uma exigência nobre.

– Nobre qual nada. Por conta dessa profissão, cresci praticamente na rua. Papai vivia enfiado no escritório e mamãe chorando pelos cantos. Peguei uma birra tão grande que não consigo nem passar em frente a um escritório de advocacia sem fazer o cruz credo. Essa exigência ainda deu para engolir, o problema foi a segunda.

– Imagino.

– Uma tragédia. Para garantir que eu não ia fazer corpo mole, tio Vadinho exigiu no testamento que o Ananias, verdadeiro cão de guarda dele, tirasse licença do escritório para me vigiar.

– Faz sentido

– Vinte e quatro horas por dia! Ou aceitava o pau mandado morando comigo até me formar, andando para cima e para baixo atrás de mim, ou adeus fortuna!

– Será que não levaram o pedido do Vadinho muito ao pé da letra?

– Foi o que pensei. No entanto, ele deixou as instruções bem detalhadas. Além do mais, meus primos solicitaram relatório diário ao Ananias, loucos para que eu cometesse um deslize. Na prática, o único lugar em que eu teria privacidade era no banheiro.

– Pelo estado que você está, não conseguiu cumprir a exigência.

– No começo foi duro. Era cada susto! Acordava de manhã meio zonzo e o Ananias no canto do quarto feito um poste. Parecia uma assombração. Se pelo menos ele fosse mais comunicativo, não dava nem bom dia, nada de envolvimentos pessoais. Fazia parte do combinado.

– Não tem quem agüente. Respondi sem muita convicção.

– Pelo contrário. Me acostumei rápido. No final, acabei gostando.

– Como assim?

– O Ananias me seguia o tempo todo. Pensei que fosse perder o emprego. Não imaginava que o dinheiro tornasse as pessoas tão maleáveis. Meu chefe, por exemplo, quando soube da estória, passou a me tratar feito um príncipe e aceitou a presença do Ananias como se fosse a coisa mais normal desse mundo. A notícia se espalhou pelo escritório, depois pela cidade. Não tinha lugar em São Paulo que eu não entrasse facilmente.

– Por causa da herança?

– Não creio. Por causa do Ananias. Ninguém se atreveria a tratar mal um sujeito com um advogado à tira colo, principalmente com aquela cara de buldogue que ele possui. Nem precisava emitir som. Bastava olhar feio que as pessoas entendiam o recado. Entrei de graça em cinema, teatro. Não queriam nem que eu pagasse mais a conta da padaria. Tudo na faixa. Teve outro tipo de preço. As pessoas se afastaram de mim como se eu tivesse uma doença contagiosa, puro medo, com exceção da Mariana.

– Estava demorando a entrar mulher na estória. Acrescentei reflexivo.

– Essa foi a ruína. Conheci a Mariana no banco. Como de costume, nos deixaram passar na frente da fila, quando cheguei no caixa para fazer o depósito, ela estava sentada, trabalhando, o rosto branco feito um anjo, olhos verdes. Sorriu. Foi o suficiente.

– Desistiu da herança por causa do amor. Arrisquei um palpite

– Quem dera. Naquela noite saímos os três para tomar sorvete. As aulas da faculdade não tinham começado.

O Teixeira encheu o copo de uísque. Ficou calado, olhando para o vazio. Suspirou profundamente. Pressenti que a estória ia tomar um rumo trágico.

– Estávamos no carro, rostos colados, quando fui beijar a Mariana, lembrei do  estrupício do Ananias no banco de trás, perdi a coragem.

– E a Mariana, ficou zangada? Perguntei tentando imaginar o ridículo da cena.

– Pior. Quanto mais eu pedia paciência, mais ela ficava excitada e partia para cima. A cena se repetiu em todos os encontros que tivemos. Implorei para o Ananias me deixar a sós com a pequena, tentei suborno, ameaça, nada adiantou. Ele sempre no meu encalço com cara de mármore italiano.

– Não me diga que pensou em dar um fim na vida dele. Murmurei entre dentes, receoso do som das minhas próprias palavras.

– Exatamente. E, antes que fizesse besteira, rompi com a Mariana. Tremendo erro. As mulheres não aceitam bem uma recusa. Todo dia, ela ia me visitar aos prantos, implorando para voltarmos. Quando viu que não tinha jeito, deu para argumentar com o Ananias. O miserável, diante dos soluços da moça, desfez o cenho e fez cara de gente. De algum modo, ela tinha tocado o coração da fera. Até demais, conforme pude constatar…

– Como assim?

– Na manhã seguinte, quando despertei, o ignóbil tinha desaparecido. Encontrei um bilhete lacônico sobre o criado mudo. Fugiu com a Mariana , e pior, o biltre fez a coisa de tal modo que não sobrou um centavo na conta do meu tio. Botamos até a Interpol no rastro, nem sombra. Devem estar curtindo a vida em alguma ilha do Pacífico. Para mim, Estevinho, nem herança nem esperança…

Teixeira afundou no banquinho como se tivesse sido atingido por um torpedo. Fiquei mudo com o desfecho da estória. De repente, ele levantou e com o dedo em riste concluiu.

– Ironia do destino –  da Mariana até que não sinto tanta falta, já estou até de olho numa colega de classe,  agora do Ananias…..

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One Comment leave one →
  1. 22/12/2009 10:45 AM

    Que seu natal seja repleto das bençãos de Deus.
    bjsss

    tem promoção de natal no blog, participe!!

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