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A morte de Erasmo Dias e um Brasil que não devemos esquecer

05/01/2010
erasmodias1

Niels Andreas/AE

Segunda-feira, dia 04 de janeiro faleceu o ex-deputado Erasmo Dias. Internado no Hospital do Câncer desde 02 de janeiro, o ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo ,segundo informações apuradas junto ao HC pela Folha Online, foi vitimado por câncer no estômago e no fígado.Protagonista da polêmica invasão da polícia na PUC de São Paulo em setembro de 1977 para conter a manifestação de estudantes em favor da reorganização da UNE, o coronel Erasmo Dias considerava-se  “réu eterno” por ter sido comandante da operação policial que reprimiu violentamente centenas de estudantes numa noite que entrou  para os anais da história contemporânea do Brasil.

A invasão

invasao-puc-77-abaixo-sucessao No dia 22 de novembro de 1977 por volta das 21h  cerca de 2000 estudantes iniciaram um ato público em protesto ao cerco policial realizado na USP, FGV e PUC/SP no dia anterior com o objetivo de impedir a realização do III Encontro Nacional de Estudantes.  No momento em que uma carta de repúdio a repressão do dia 21 estava sendo lida em coro, viaturas comandadas pelo então secretário de Segurança Pública Erasmo Dias cercaram o prédio da PUC e investigadores civis e tropas de choque investiram sobre a multidão iniciando uma escalada de violência que iria perdurar por várias horas com dezenas de feridos.

Segundo o relato do DCE LIVRE da PUC/SP publicado na Folha de São Paulo em 22 de novembro de 1977, foram utilizados cacetetes, bombas de gás, lança-chamas e substâncias químicas corrosivas naquela noite não apenas contra os manifestantes mas também nos estudantes nas salas de aula, bibliotecas e no restaurante provocando pânico generalizado num ataque que teve como alvo também as dependências físicas da universidade em represália da polícia pelo apoio dos reitores ao movimento estudantil (Leia relato completo no link indicado no final do artigo).invasao-puc-77-corredor

Ainda segundo o DCE, a violência gratuita foi premeditada, posto que a polícia poderia ter simplesmente dissolvido o ato público realizado naquele dia pelos estudantes, uma vez que ele foi decidido previamente em Assembléia na qual vários informantes da polícia estiveram presentes.

Erasmo Antônio Dias

Nascido no Estado de São Paulo na cidade de Paraguaçu Paulista em 02 de junho de 1924, formou-se em História pela USP e bacharel em direito pela Universidade de Guanabara. Ingressou no Exército durante o regime militar de 1964 prestando serviço durante 35 anos. Foi um dos fundadores do partido ARENA tendo sido secretário de Segurança Pública de São Paulo entre março de 1974 e março de 1979 na gestão do presidente Ernesto Geisel e do governador Paulo Egídio Martins. Foi vereador, deputado estadual e federal, encerrando a carreira política em 2004. Faleceu em 04 de janeiro de 2010

A filha de Erasmo Dias e a PUC

Em 2004 em entrevista concedida à Folha de São Paulo, o coronel Erasmo Dias afirmou ser estigmatizado pelo episódio de 1977 e que a filha teria sido humilhada ao tentar matricular-se para o curso de Direito da PUC em 1978 após ter passado no vestibular da instituição. Ele declarou na época, “(…)Quero receber reparação. Tenho mais direito a ela do que aqueles terroristas que fizeram guerrilha e agora posam de heróis, ditando as regras neste país.”

Brasil, ontem e hoje

Foram mais de vinte anos de obscurantismo no período do regime militar (1964-1989), apesar das controvérsias, os números apontam cerca de 400 brasileiros cujas vidas foram ceifadas pela ditadura. Muitas feridas ainda não foram cicatrizadas, mas a persistência venceu e o Brasil de hoje olha para o passado com alívio. A morte de Erasmo Dias, um dos símbolos de um tempo de nuvens escuras no céu azul anil nos faz lembrar que mesmo com todas as deficiências, a democracia foi conquistada com suor, lágrima e sangue e é obrigação das gerações vindouras lutar para mantê-la utilizando as melhores armas disponíveis a todos – o voto, a conscientização e a esperança de que nossos filhos vão desfrutar de um amanhã melhor do que hoje.

Referências

A morte de Erasmo Dias (Folha Online)

Entrevista de Erasmo Dias para a Folha de São Paulo em 22/08/2004

Artigo sobre a invasão da PUC publicado no MOVA (Portal do Movimento Estudantil)

Relato da invasão da PUC pelo DCE da PUC publicado na Folha de São Paulo em 28 de novembro de 1977

Artigo sobre o número de mortos durante o regime militar por Reinaldo Azevedo

Álbuns do DOPS contendo  fotos de estudantes que estavam na PUC no dia da invasão (dentre eles o ator Edson Celulari)

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3 Comentários leave one →
  1. Creusa de Marta Zampiere permalink
    06/01/2010 11:53 PM

    Na verdade eu era muito jovem à época da ditadura militar de 1964, contava apenas com 10 anos de idade, mas lembro-me perfeitamente quando ora ou outra fazia algumas perguntas ao meu pai ou a algum mestre, e, as respostas eram sempres evasivas. Razão que fez com que agussasse muito meus interesses pela compreensão da política vigente à época.
    Não compreendia o motivo de tanta passividade da população brasileira, no tocante aos abusos de autoridades cometidas pelos agentes de segurança, não sabia o que era militarismo, ditadura, autoritarismo, apenas era educada em casa e na escola a não fazer tantas pergutas com relação á política, e, educada a não emitir aleatoriamente o que pensava sobre determinados temas sociais. Passava oras lendo o Estadão para tentar compreender aquela linguagem enigmática, a qual nem com um bom e renomado dicionário conseguia decifrar-lhe o conteúdo. Assim, com um pouquinho de curiosidade, com um pouquinho de ajuda intelectual de uma boa professôra de português e literatura brasileira, com algumas deixas de uma excelente professôra de história fui desvendando o enigma da situação política a qual o país vivia, e, sobre os meus ombros pesava ainda que uma ínfima parte da continuídade da construção social, política e econômica do país através do meu trabalho, assim quis saber mais e o máximo possível de tantos porquês entalados em tantas pessoas com certo grau de cultura e conhecimento sem sequer poder serem aflorados, pelo medo de uma sigla chamada dops, uma lei chamada A I – 5 a qual tanto meu velho pai quanto meus mestres faziam questão de me intruírem a não cair nas garras desses guardiões do inferno.
    Em 1978, como era católica praticante fiquei conhecendo um grupo de agentes políticos, sob a camuflagem de realizar obras sociais, discutiam de forma reservada nos fundos das igrejas temas políticos, sociais e econômicos com os fieis, e, dali saiam grandes lideranças o que fui perceber algum tempo depois, esses trabalhos eram dirigidos pelos representantes de esquerda alguns ocupando pastas no antigo partido político de esquerda MDB – Na minha região as lideranças vinham sob controle da Irma Passone, e, Walter Feldmam , e, participando de movimentos de protestos liderados pela Deputada Irma Passone, que na época não era Deputada apenas militante de esquerda, pude entender e amadurecer bem depressa dentro da compreensão prática o que era Ditadura Militar, autoritarismo, negação da liberdade, repressão bruta, a qual os direitos humanos chamam de excessos, conheci muito bem a atuação do representante de Satanás na terra ERASMO DIAS, e, seus comandados Se inferno há creio que o finado em tese estará entre os seus familiares, portanto não haverá cumprimento de justiça nem neste plano nem no outro plano, penso até que nos quinto dos infernos será o déspota condecorado.
    Uma coisa tenho certeza valeu à pena as bombas de gás lacrimogêneo nas costas, as cacetetadas, as quase viagens de camburão, somente não cheguei a ser presa graças a Dona Irma Passoni que sempre estava lá a defender seus militantes, e, nos resgatando dos camburões, mas os socos, as pauladas, as cacetetadas, os ponta-pés levamos sim e muitos, os hematomas desapareceram, mas, muitas cicatrizes de famílias interas, dos que lá estiveram nos idos anos setenta, as cicatrizes vão continuar falando pela dor e pela saudades de seus entes, uns mortos outros tantos desaparecidos pelas mãos ou sob o comando desse carrasco demoníco hoje cruzando as fronteiras do limbo direto para o inferno.
    Valeu a pena, mesmo que não tenhamos ainda muitas opções de voto, mas, resgatamos nossos irmãos do exilio, e, estamos construído passo a passo a nossa luta política e social dentro de parâmetros democrâticos através da liberdade do voto, ainda não ideal, mas nossos filhos e netos poderão continuar fazendo através do caminho que deixamos aberto.
    Enfatizo a pena prima, e, este é o meu maior sentimento que o diabólico Erasmo Dias não sofrerá a pena de Justiça alguma, este é o sentimento mais doloroso que terei que continuar convivendo pela eternidade a dentro.
    E, aqui tristemente me rendo dizendo aos familiares desse monstro que ele venceu nos dois planos, e , em glória para infelicidade nossa, na terra não foi julgado, e, no inferno será condecorado.
    Portanto não deixo meus pesares, praxe social, à parentela do mal ditoso Erasmo Dias, mas meus parabéns pela condecoração que muito provavelmente ja está a receber no Inferno.

    Creusa de Marta Zampiere

  2. 07/01/2010 6:38 AM

    Prezada Creusa,
    Parabéns pelo relato emocionante, ainda que triste. A dimensão do que você e tantos outros brasileiros passaram não pode ser medida em simples palavras e cabe apenas um profundo respeito. Devo confessar que como muitos outros da minha geração, não tive acesso a uma perspectiva mais profunda do período da repressão. Os livros de história são vagos e superficiais quando se referem ao assunto e minhas memórias trazem apenas efeitos mais amenos desse tempo. Eu era um menino e o fantasma da repressão militar rondava à espreita, mas nunca passou dos limites dos portões da minha casa. Me recordo que uma vez eu peguei um panfleto “subversivo’ na rua por mera curiosidade e levei prá casa e quando meus pais e irmãos mais velhos viram o impresso ficaram apavorados pois trabalhavamos com livros e eles tiveram medo de serem responsabilizados e por isso eu quase levei uma surra, fiquei perplexo e só pude compreender o motivo da paranóia anos depois. Morávamos próximos ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e tempos depois pude aoompanhar a uma distância segura a ação truculenta da polícia com bombas de gás e cassetetes contra a greve dos trabalhadores liderada por um jovem chamado Luís Ignácio da Silva. Esses foram os fatos mais marcantes que vivi relacionados ao período da ditadura militar e não podem se comparar nem de longe a quem viveu e sentiu literalmente na pele a violência e desrespeito tão comuns naqueles dias. Para tecer uma comparação, seria como a análise do Holocausto por alguém que viveu a infância próximo a um campo de concentração e a avaliação de alguém que sobreviveu tendo vivido dentro de um deles, são pontos de vista completamente distintos.
    Quanto ao seu desgosto pela “impunidade” dos agentes da repressão militar, muito pouco ou nada posso fazer a não ser me solidarizar com sua dor, mas discordo ligeiramente por uma questão de crença pessoal. Acredito em engrenagens silenciosas que comandam os fatos numa amplitude maior e mais profunda que escapa da compreensão do cérebro humano e baseado nessa crença que não passa nem perto do conformismo, posso afirmar que ainda que nossos olhos não possam enxergar completamente toda a engrenagem, elas existem e cada indivíduo será responsabilizado por suas condutas mais cedo ou mais tarde…
    Outro ponto que pode ser considerado, embora não tão aparente e portanto difícil de ser percebido é que se hoje nossos filhos, adolescentes e adultos podem disfrutar da liberdade de expressão que permite discordar abertamente do Estado, assim como escolher os livros que desejam ler, os filmes que desejam assistir, as idéias que desejam assimilar entre tantos benefícios de uma democracia aprendiz, mas real, é porque alguém pagou um preço caro por isso, alguém teve coragem de dizer não mesmo que isso tenha custado a própria vida e se esses heróis por vezes não possuem estátuas nas praças ou nomes de ruas, com certeza estão gravados eterna e silenciosamente no coração daqueles que os conheceram e no inconsciente de toda uma nação.
    No mais, apesar de acreditar que um país não pode ser construído dignamente com rancor e mágoa, também cabe lembrar a máxima do filósofo espanhol George Santayana “aqueles que não podem lembrar o passado, estão condenados a repeti-lo”
    Obrigado e felicidades!

  3. Creusa de Marta Zampiere permalink
    12/09/2010 3:57 AM

    Caro adpereira!

    Desculpe a demora em respostar seu comentário, e, na oportunidade peço excusas pelos excessos cometidos em comentário no seu blog, por ocasião do passamento do Sr Erasmo Dias.
    Confesso que na ocasião, logo que soube da extinção do Erasmo Dias passou-me um filme na memória, afrescada pelas lembranças dolorosas. A morte tardia desse Senhor angustiou-me sobremaneira aquele momento. Naquele momento psicológico considerei sua morte tardia. O que como Cristã que sou, após muita reflexão, arrependo-me dos excessos, e arrependo-me mais quando peso minhas convicções liberalistas e democráticas, pois um posisionamento radical e inflexivel tornar-me-ia igual ou pior, dentro das devidas proporções, aos meus mais ferrenhos opositores e algozes daquela época, graças a Deus passadas, mortas e tão bem enterradas que nem nas melhores escolas as crianças de hoje são instruídas sobre o rigor do que foi a luta insandecida contra a Ditadura Militar.
    Que o Bom Deus tenha em sua memória divina o Dr Ulyssis Guimarães, Tancredo Neves e tantos outros, cujo espaço é poco para revenciar, e, que dentro de suas parcas limitações souberam galardamente colocar a Nação nos trilhos Democráticos. Daqui para frente será com nossos filhos e netos.
    Como é mediante o conflito e o contraditório internalizado por nossas vivências interpessoais, assim me retrato com o nobre amigo, com a sociedade e com a parentela do Senhor Erasmo Dias pedindo a Deus que tenha sobretudo misericórdia de sua alma, e que não o puna nem de leve com o mesmo peso de mãos a que foi utilizado por esse cidadão aos que discordavam de seus ideiais fisóficos aqui na terra.
    Muito obrigada pelo espaço e que o Bom Deus o proteja!

    Crusa de Marta Zampiere

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