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Crônicas Cotidianas – Susaninha a foca entrevista a deputada Zalú

07/01/2010

O Almeida estava impaciente. Naquele dia a redação do jornal parecia final de campeonato. Repórteres circulando  feito baratas tontas, um calor dos diabos. E ainda tinha a Susaninha,filha do senador Aristides. Uma morena bonita e graciosa de  vinte e dois anos, mas que estava mais  para anta do que foca…e pior, ia começar no jornal bem no dia em que pegaram um peixe grande da política com a boca na botija! Precisava se livrar da encrenca o quanto antes. Chamou o fotógrafo aos berros.

– Rafa, trata de acompanhar essa flor na primeira matéria dela e vê se tira umas fotos decentes dessa vez!

– Sim senhor! Onde vai ser ? Perguntou o Rafa de máquina a tiracolo.

– Gabinete da deputada Zalú. Não é que a danada da foca conseguiu uma exclusiva com a autoridade…?!

– E onde está a pauta?

– Como é que vou saber !?! È um papel amarelinho que deve estar aí nessa bagunça em cima da mesa.

Chegaram com uma hora de atraso no escritório da deputada. No caminho, a Susaninha lia mentalmente a pauta enquanto  relembrava as lições que tivera na faculdade. “Ousadia era com z ou com s?” perguntou-se aflita. A assessora da deputada já estava na recepção do prédio.

– Puxa, pensei que não viessem mais! Disse a assessora passando a mão na vasta cabeleira loira.

– Desculpe Dona Matilde, o trânsito está terrível. Respondeu Susaninha sem graça enquanto o Rafa coçava a cabeça.

– Tudo bem, acontece. Vamos logo com isso que a deputada Zalú precisa tomar o vôo para Brasília ainda hoje. Como você veio bem indicada não vou tomar nosso tempo lendo as perguntas, posso confiar no seu bom senso, certo? Perguntou a assessora sem tirar os olhos do papel.

– Firmeza. O editor chefe ajudou a preparar. Não tem como errar. Respondeu a foca com um sorriso amarelo.

Entraram no escritório . O tapete vermelho era tão grosso que os pés desapareciam da vista. A deputada Zalú aguardava impaciente.

– Olá Susana, mande um abraço pro seu pai. Pena que vocês atrasaram tanto. Senta minha filha, querem um refresco, um café?

– Não obrigada. Podemos começar a entrevista?

– Com certeza meu amor. Você sabia que eu e seu pai estudamos juntos no colégio?

– Sabia. Ele fala muito bem da senhora. Posso fazer primeiro as perguntas e quando terminar o Rafa tira as fotos ?

– Claro meu anjo.

Susaninha puxou o papel amarelo.

– Quando foi a primeira vez da senhora?

A deputada se ajeitou na poltrona.

– Primeira vez? Ah,  primeira candidatura você quer dizer. Em 1970, quando fui eleita vereadora por São Paulo.

– E qual foi o máximo de clientes que a senhora teve?

– Você quer dizer eleitores não é? Não acha clientes uma palavra inadequada? Foram tantos que nem saberia quantificar. Respondeu a deputada se remexendo na poltrona

– E como satisfazer as vontades de tantos clien..quero dizer eleitores diferentes?

– Isso de fato é difícil, mas quando a intenção é boa, de se doar para o próximo, a gente acaba indo de encontro ao gosto popular.

– A senhora sofre muito preconceito por causa da profissão?

A deputada Zalú ficou enrubescida.

– É uma profissão como outra qualquer, estranhas essas perguntas, não acha ?

– De maneira alguma. O jornal para o qual trabalho tem um compromisso sério com os leitores.

– Sei.  Vamos logo que o tempo está acabando.

– Está bem. Faltam apenas seis perguntas para as fotos. A senhora sente prazer na relação com os…eleitores?

– Até que enfim uma boa pergunta! Eu adoro o eleitorado, me dá muito prazer estar com eles.

– A senhora gosta de apanhar mesmo deles ou faz isso apenas para manter a imagem?

– Agora chega! Esse jornaleco está indo longe demais. O Aristides que me perdoe. Vamos  tirar essas  fotos para acabar logo com isto, onde já se viu que falta de respeito!

O Rafa estava espremido na cadeira sem coragem de tirar os olhos da pauta. A deputada se  levantou e ajeitou o tailler.

– Vamos para a sessão de fotos menino?

– Acho melhor não. Respondeu o fotógrafo constrangido.

– Qual o problema Rafa? Perguntou a Susaninha com ar ingênuo.

– Aqui na pauta está pedindo para tirar fotos da deputada sem a blusa, só de sutiã!!! Cochichou o Rafa no ouvido da colega.

A assessora da deputada irrompeu pela sala com o telefone na mão. Era o Almeida.

– Alô. Susaninha?  Pelo amor de Deus me diga que vocês não usaram  a pauta que o Rafa levou!

– Porque chefe?

– A pauta da deputada ficou em cima da minha mesa. Vocês levaram por engano a pauta da entrevista da cafetina Neruska Maruska, rainha do sado-masoquismo!

Foram necessários dois meses de envio de flores diariamente para que a deputada Zalú voltasse a falar com o senador Aristides . Por causa do  incidente, o jornal do Almeida preparou às pressas uma série de cinco reportagens no caderno de domingo sobre a biografia da deputada. O Rafa  e a Susaninha passaram três semanas fazendo matérias sobre os esgotos em céu aberto na periferia da cidade. Vida de foca não é fácil.

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  1. Matos Silva Jr permalink
    09/05/2010 5:13 PM

    Gostaria de te convidar a participar de uma rede de conteúdo. Se quiser me manda email ocasional82@yahoo.com.br. Inté

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